Não tem troféu, não tem contador de estrela, não tem gráfico de sequência — em parte por convicção e em parte porque essas imagens são servidas por um serviço gratuito que cai, e um backend que exibe orgulhosamente um ícone quebrado diz sobre mim exatamente a verdade que eu não queria dizer.
Nenhum computador sabe que horas são. Isso costuma surpreender as pessoas, que imaginam o computador como um objeto de precisão, quando ele é, na verdade, um objeto de opinião: em qualquer sistema minimamente sério existem pelo menos três máquinas que discordam a respeito do presente, e uma delas está absolutamente convicta de que estamos em 1970 — convicção que nenhum argumento, nenhuma evidência e nenhuma reunião de alinhamento jamais conseguiu abalar.
Os logs são o diário íntimo desse mal-entendido. Ninguém lê, pela mesma razão pela qual ninguém lê diários íntimos, até o dia em que alguém precisa muito — e descobre que a única linha que importava não foi escrita, porque na hora o autor achou que aquilo ali não ia dar problema.
Um sistema distribuído, por sua vez, mantém-se de pé mais ou menos como uma pilha de cadeiras se mantém de pé: perfeitamente, até alguém perguntar como. Estima-se que noventa e quatro por cento das arquiteturas em produção no mundo funcionem exclusivamente porque ninguém teve coragem de fazer essa pergunta em voz alta, e que os seis por cento restantes sejam Postgres.
A fila de mensagens é o único componente da computação dotado de algo comparável à esperança. Ela acumula, ela aguarda, ela acredita com sinceridade comovente que alguém vai consumir aquilo um dia. Eu sou a pessoa que, às três e quarenta da manhã de um domingo, precisa explicar a ela que não.
Eu trabalho com backend. Também faço frontend — aquele lugar onde inventaram 3 formas diferentes de centralizar uma div e nenhuma funciona de primeira.
A coisa mais perigosa que pode acontecer dentro de um sistema é um nome provisório. Ninguém jamais planejou que teste2 fosse para produção. teste2 foi criado numa quinta-feira à tarde, para durar vinte minutos, com o propósito único de confirmar uma hipótese que se revelou falsa. A hipótese morreu naquele mesmo dia. teste2 não. Hoje teste2 processa pagamentos, tem três réplicas, sobreviveu a duas migrações de nuvem, apareceu num slide apresentado a investidores, e é chamado de teste2 com genuíno carinho por dezoito pessoas das quais nenhuma faz a menor ideia do que ele um dia deveria testar.
Tem código aqui embaixo. Uma parte funciona, uma parte funcionou, uma parte naquele estado que a biologia chamaria de dormência e que a nossa profissão, com um otimismo, chama de em andamento.




